quinta-feira, 25 de agosto de 2011

DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL 


Ramiro Manoel Pinto Gomes Pereira*
Parte do Doutorado em Recursos Naturais - agosto de 2011
 

A questão ambiental já motivara debates nas primeiras décadas do século XX, quando várias proposições foram elaboradas no sentido de conciliar a agricultura com a preservação ambiental. Conforme DIAS JÚNIOR (2000), a escola preservacionista, de característica biocêntrica, cujos expoentes foram Thoreau, Marsh e John Muir, coloca o homem em igualdade com os demais seres da natureza, não lhe sendo dado o direito de degradar o meio ambiente. Já os conservacionistas, tendo Pinchot como principal teórico, acreditam no uso racional dos recursos naturais.
 


A Revolução Industrial, processo político, econômico e social iniciado no século XVIII, baseava-se na produção em larga escala, considerando que os recursos naturais eram ilimitados, sem preocupação ou qualquer controle na geração de resíduos e sem a menor atenção ao meio ambiente, dentre outros fatores ambientalmente impactantes inerentes à produção e ao consumo, advindo a resultar numa global crise social e ambiental.
 

A pressão da sociedade em diversos países em buscas de políticas que vislumbrassem o desenvolvimento sustentável avolumou-se ao longo das duas últimas décadas do século XX. Os grandes desastres ambientais e o fato do processo de regeneração do meio ambiente não acompanhar o volume de produção, de consumo e de descarte adotado, levou diversas nações a assinarem acordos que visam um desenvolvimento com mais equidade e menos degradação ambiental.
 

O esgotamento das estratégias de crescimento econômico configurou uma crise mundial em função dos problemas sociais e ambientais e impulsionou a “idéia” de desenvolvimento sustentável, especialmente a partir da Conferência de Estocolmo, em 1972, quando emergiu o conceito de ecodesenvolvimento. A temática sobre indicadores de sustentabilidade passa, necessariamente, por uma determinação clara do que se compreende por desenvolvimento sustentável e como surgiu este debate.
 

MEADOWS et al. (1972) cita que em 1962 ocorreu um fato emblemático na denúncia dos problemas ambientais, com o lançamento do livro "Primavera Silenciosa" ("Silent Spring"), da escritora, cientista e ecologista norte-americana Rachel Louise Carson, um best-seller alarmante que trouxe à luz do dia os problemas do pesticida DDT e tornou pela primeira vez grande parte do Governo Americano e do público consciente de que todos os seres vivos dependiam uns dos outros, e de um ambiente saudável, para sobreviverem.


Em 1972 aconteceram outros fatos relevantes na mudança de concepção sobre crescimento e desenvolvimento, uma delas é a Conferência Mundial das Nações Unidas para o Meio Ambiente, ocorrida em Estocolmo, e a outra é a publicação do relatório “Limites do Crescimento” apresentado pelo Clube de Roma, em que se reconhece: (a) a limitação dos recursos naturais, (b) a ameaça dos problemas ambientais em relação à sobrevivência humana e (c) a preocupação com o suprimento das necessidades das gerações futuras.

O debate apresenta pela primeira vez na história que as atividades humanas, em escala mundial, atingiram níveis em que se pode alterar o clima do planeta e sua diversidade biológica. A força motriz das indústrias, fundada na utilização de combustíveis fósseis, contribuiu sobremaneira para o lançamento das emissões de gases na atmosfera que começaram a alterar o clima da terra e na insaciável utilização de recursos naturais, que tem concorrido para o aumento da discrepância entre o consumo desses recursos e as políticas industriais e de desenvolvimento nos países. Nesse instante de conflito entram em cena as discussões acerca do desenvolvimento.
 

SOUZA (1999) apud VEIGA (2005), apresenta o desenvolvimento sob três abordagens. A primeira, de inspiração mais teórica, trata do desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico. Contudo, é necessário fazer uma diferenciação entre os termos. As questões referentes ao desenvolvimento econômico possuem suas raízes históricas, teóricas e empíricas nas crises econômicas ao longo do tempo. Adeptos da corrente empírica, economistas de tradição neoclássica como Meade e Solow e de tradição keynesiana como Harrod, Domar e Kaldor afirmam que o crescimento econômico é situação indispensável ao desenvolvimento econômico, mas não suficiente uma vez que mesmo uma economia crescendo a taxas elevadas o desemprego pode não reduzir e nem os frutos desse crescimento beneficiar a população como um todo. O crescimento econômico é centrado na idéia que sendo a renda distribuída diretamente aos possuidores dos fatores de produção, engendra a elevação dos padrões de vida e o desenvolvimento econômico.
 

A segunda abordagem conduz ao entendimento do desenvolvimento ser uma reles ilusão, um mito. Representada pelo economista e sociólogo Giovanni Arrigh, a corrente se firma na questão central da impossibilidade de mobilidade frente ao rígido sistema capitalista, ou seja, serão pouco prováveis que os países ditos emergentes sejam absorvidos por grandes potências, quiçá os países pobres. A última abordagem, que se concentra no “caminho do meio”, assegura que o desenvolvimento não é nem um mito, tampouco se reduz ao crescimento econômico, mas uma convergência das sociedades industriais a uma transição e evolução (SOUZA, 1999).
 

A procura por um conceito no sentido teórico e prático do desenvolvimento tornou-se unânimes nos mais variados segmentos sociais em todo o mundo. O termo desenvolvimento sustentável originou-se nas discussões internacionais acerca do conceito de desenvolvimento. Trata-se, segundo VAN BELLEN (2002), apenas uma reavaliação do conhecimento de que se tinha acerca do que seria o desenvolvimento, agora não mais ligado à tônica do crescimento econômico.
 

Na definição dessa crise, CAPORAL & COSTABEBER (2000) descreveram que “a partir da década de 1970, os resultados da aplicação das estratégias convencionais de desenvolvimento que já começavam a se mostrar insuficientes para dar conta das crescentes condições de desigualdade e de exclusão social. Apesar do crescimento do PIB, as análises destes resultados passavam a indicar que tais estratégias estavam ocasionando graves danos ao meio ambiente”.


Em 1973, o canadense Maurice Strong, baseado nas discussões da Conferência de Estocolmo, lança o conceito de “ecodesenvolvimento”, cujos princípios foram formulados por Ignacy Sachs, economista polonês naturalizado francês, que em 1976 levanta as questões da solidariedade intergeracional, da participação popular e da preservação dos recursos naturais, apresentando uma definição mais precisa de ecodesenvolvimento. O termo é considerado por muitos, como precursor do termo “sustentabilidade”. O conceito de ecodesenvolvimento emerge com o esgotamento das estratégias de crescimento econômico, configurado por uma crise mundial em função dos problemas sociais e ambientais, impulsionado pela “idéia” de desenvolvimento sustentável.
 

Em 1980, a publicação da Estratégia de Conservação Mundial (World Conservation Strategy), editada pela International Union for Conservation of Nature (UICN), já constava uma seção intitulada “Em direção ao desenvolvimento Sustentável.” (BACKES (2002) apud MOURA (2002)).
 

Em 1983 foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) a Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a partir da preocupação com a crescente escassez dos recursos naturais e o aumento da pobreza de grande parte da população do mundo. Em 1987, a comissão publicou o documento “Nosso Futuro Comum”, conhecido como Relatório Brundtland, que consta a definição clássica de desenvolvimento sustentável: “atender às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender suas próprias necessidades”.
 

A partir daí, as expressões “sustentabilidade” e desenvolvimento sustentável passaram a ser de uso corrente na academia, nos meios políticos, e, até mesmo, nos meios financeiros. As definições se multiplicaram, sempre enfocado a relação entre o meio ambiente e a sociedade. Esta continua a ser a definição que norteiam todas as outras formuladas posteriormente, pois tem como centralidade o princípio da solidariedade diacrônica.


A diversidade de definições não resolveu, de maneira objetiva, a operacionalização do conceito de sustentabilidade uma vez que implica na valoração de bens materiais que não têm preço convencionado e a ciência econômica toma os recursos naturais como de custo zero por não terem sido construídos pelo trabalho humano, mesmo que sejam escassos ou valiosos para os seres humanos. Por outro lado, o bem-estar, é uma noção subjetiva, de cunho pessoal, de difícil mensuração (MOURA, 2002).
 

A realização na cidade do Rio de Janeiro, em junho de 1992, da Conferência Especial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento - CNUMAD (Cúpula da Terra, mais conhecida por "RIO-92" ou "ECO-92") buscou o consenso internacional para a operacionalização do conceito do desenvolvimento sustentável, tendo atraído a atenção mundial. Nessa conferência foi elaborada a Agenda 21. O evento foi considerado como um marco que colocou a questão ambiental em pauta. Em 1997, ocorreu a Conferência Rio +5, segundo CAPORAL & COSTABEBER (2000), chegando-se a conclusão que “não mudou nada” do ponto de vista prático, apesar das controvérsias que persistem e da lentidão do avanço do ponto de vista de resultados.
 

JARA (1998) previu a ruptura com as estratégias tradicionais de desenvolvimento, quando diz que “a abordagem do desenvolvimento sustentável surge como um novo "paradigma" para orientar a gestão local, um ideal a ser perseguido, uma atitude responsável diante das gerações presentes e futuras, considerando a diversidade social, cultural e geo-ambiental, procurando encontrar soluções específicas para problemas e necessidades específicas”.
A preocupação com a operacionalização do conceito na avaliação da sustentabilidade levou MASERA et al. (1999) a definir que “fazer operativo o conceito de sustentabilidade implica simultaneamente um sério esforço teórico e certa dose de pragmatismo”.
 

CAMINO & MÜLLER (1993) fizeram um paralelo entre as principais definições sobre sustentabilidade, que para a maioria dos autores é um conceito em disputa não havendo um consenso que se aplique a todas as situações. Outros preferem adotar o termo noção, denotando uma possibilidade de adequação a diferentes objetivos e enfoques. Devido às imprecisões conceituais e operacionais e as diferentes visões, levanta-se diversas definições que possibilitem, num esforço de conjugação e operacionalizar o conceito que permita balizar a construção de indicadores adequados aos objetivos deste estudo, uma vez que se considera que a definição de desenvolvimento sustentável é fundamental para isto.
 

As definições consultadas procuram integrar a viabilidade econômica com prudência ecológica e justiça social. Pode-se depreender, no entanto, uma centralidade da questão ambiental, pois, mesmo nas definições mais voltadas para uma visão econômica, há uma preocupação com o esgotamento dos recursos naturais que podem ser explorados com fins lucrativos pelo homem. Por outro lado, as visões mais vinculadas à justiça social implicam na preservação dos recursos ambientais para atender as gerações futuras e na distribuição equitativa destes recursos.
 
Ao discutir o conceito de desenvolvimento sustentável, ALMEIDA (1997) classificava-o como um “guarda-chuva que abriga um grupo de atores alternativos que buscam inventar um novo modo de desenvolvimento e de agricultura que seja: socialmente justo, economicamente viável, ecologicamente sustentável e culturalmente aceito, recuperando técnicas, valores e tradições”, expressando uma visão multidimensional da sustentabilidade. ALMEIDA (2002, p. 24) considera “um novo projeto para sociedade, capaz de garantir, no presente e no futuro, a sobrevivência dos grupos sociais e da natureza”. Porém, necessita-se de cautela ao tratar o desenvolvimento sustentável por seu caráter multidisciplinar. Diferente dos modelos de desenvolvimento ocidentais que foram impostos, de certa forma, aos países subdesenvolvidos na década de 60.
 

Além de um caráter multidimensional, pode-se observar alguns critérios que norteiam as definições. ALTIERI (1989) relaciona as dimensões da sustentabilidade com uma visão temporal quando “refere-se à habilidade de um agroecossistema em manter a produção, através do tempo, em face de distúrbios ecológicos e pressões sócio-econômicas de longo prazo”. CAMINO & MÜLLER (1993) colocam o tempo como uma variável central na determinação da sustentabilidade para comparar com o passado, analisando tendências que permitam elaborar projeções do futuro.


Uma perspectiva temporal pode ser observada na definição de HUETING & REIJNDERS (1998): “sustentabilidade é definida como o uso de funções ambientais vitais de tal modo que elas permanecem disponíveis indefinidamente”.
 

MARTINS (2000) internalizou na sua concepção de desenvolvimento sustentável as noções de escala espacial e a necessidade de um enfoque sistêmico, quando define que “enseja pelo menos os seguintes pressupostos básicos: deve contemplar a harmonia entre as dimensões econômicas, sociais e ambientais; necessita de ações sistêmicas, interdisciplinares, integradoras e de cooperação e pressupõe ações locais com visão global”.
 

A perspectiva espacial é fundamental pela necessidade de contextualização do conceito para avaliação da sustentabilidade. Enfatizando a questão da escala espacial, FRANCO (1998) definiu que o “desenvolvimento local integrado e sustentável é um novo modo de promover o desenvolvimento, que possibilita o surgimento de comunidades mais sustentáveis, capazes de suprir as suas necessidades imediatas, descobrir ou despertar as suas vocações locais e desenvolver suas potencialidades específicas, além de fomentar o intercâmbio externo, aproveitando-se de suas vantagens locais”. 
 
Uma definição mais concisa de desenvolvimento sustentável foi dada por RATTNER (1991) apud EHLERS (1996) que consideram “um processo contínuo de melhoramento das condições de vida, que minimiza o uso de recursos naturais e ocasiona o mínimo de impactos e desequilíbrios no ecossistema”.

 
As diversas definições, enfoques e visões da sustentabilidade apresentam contradições e ambiguidades, muitas vezes, irreconciliáveis. Para PINHEIRO et al. (1997) estas definições “procuram enquadrar a noção a partir dos interesses daqueles que a definem, cada um a considerando melhor”. 

 
Dois pontos parecem proporcionar as maiores controvérsias na questão do desenvolvimento sustentável. O primeiro ponto envolve uma questão de semântica e diz respeito ao conjunto da expressão desenvolvimento sustentável. A palavra desenvolvimento, de acordo com CAPORAL & COSTABEBER (2000), “está relacionada à idéia de progresso, que, por sua vez, tem sido diretamente relacionado ao crescimento econômico, ao crescimento da produção industrial, ao avanço do domínio técnico-científico sobre a natureza, mas também sobre o domínio do pensamento humano através da ideologia do progresso. Qualquer aspecto que fosse apontado como “limite” era (e ainda é) tido como um pensamento conservador”. Para RODRIGUES (1998) a palavra sustentável dá uma conotação de restrição do crescimento ou de manter-se em equilíbrio.



Para MARRUL FILHO (2000) “um dos principais elementos constitutivos da crise do desenvolvimento esteve na profunda contradição e impossibilidade de conciliação entre progresso, crescimento econômico ilimitado e a finitude dos recursos ambientais que, em última instância, suportam o processo de produção e consumo, motor dinâmico do modelo. Em outras palavras, não há sustentabilidade no desenvolvimento”. O segundo ponto refere-se ao enfoque de sustentabilidade que os diversos atores contemplam em suas elaborações.


A constatação de uma crise no modelo de crescimento econômico continuado não provocou um comportamento uniforme naqueles que defendem a mudança de modelo de desenvolvimento. Segundo diversos autores, há uma polarização em duas correntes com enfoques distintos de desenvolvimento sustentável: a ecotecnocrática e a ecossocial (ALMEIDA (1997) e CAPORAL & COSTABEBER (2000)).
 
A primeira, caracterizada na “Economia Ecológica” ou “Economia Verde”, que pode ser considerada otimista e vincula o padrão de desenvolvimento aos objetivos de crescimento econômico, mantendo o ideal de progresso. Os defensores desta idéia consideram que as raízes da crise ambiental estão no fato de que se considerava a natureza como um bem de custo zero e os danos ambientais eram considerados externalidades, que não eram expressas no preço.

 
Uma alternativa proposta por essa corrente é considerar o meio ambiente como um bem econômico, dotado de valor monetário na forma de taxas ou impostos, internalizando os custos para compensar os danos ambientais. Pode-se identificar na corrente ecotecnocrática um viés econômico que ALMEIDA (1997) “apontava para novos mecanismos de mercado como solução para condicionar a produção à capacidade de suporte dos recursos naturais”. Além dos mecanismos de mercados, esta corrente pressupõe ser possível manter o padrão de crescimento econômico, equacionando os problemas sócio-ambientais, através da incorporação de tecnologias menos danosas ao meio ambiente, de acordo com CAPORAL & COSTABEBER (2000). Em relação à agricultura, essa corrente adota a idéia da “intensificação verde” o que vem sendo chamado Revolução Verde Verde ou Revolução Duplamente Verde.

 
A segunda corrente é considerada pessimista, em relação ao padrão de desenvolvimento atual que prioriza o lucro, em função de impactos ambientais negativos. É chamada de corrente ecossocial e baseia-se na noção de ecodesenvolvimento, apresentando uma característica multidimensional e, de acordo com CAPORAL & COSTABEBER (2000), defende a “solidariedade diacrônica em relação às gerações futuras e sincrônica em relação à geração presente”; supõe o pluralismo tecnológico; o respeito às condições do ecossistema local e o envolvimento dos atores nas decisões, referentes aos processos de desenvolvimento. Esta corrente parte do princípio de que o mercado é imperfeito e incapaz de resolver todos os problemas sócio-ambientais.  Ambas as correntes, entretanto, apontam para a existência de uma preocupação com a atual situação e busca por solução.

 
Para definir desenvolvimento sustentável é necessário que se parta da conjectura de que se trata de uma noção comparativa, em que se pode determinar se um critério é mais ou menos sustentável em determinado contexto, não existindo, no entanto, medidas exatas para cada critério. Apesar das controvérsias a respeito da conceituação de sustentabilidade, existe uma aparente unanimidade em torno das características de sistemas sustentáveis e de algumas metas a serem perseguidas para que um agroecossistema caminhe em direção à sustentabilidade.



Devem basear-se nos ciclos de ecossistemas naturais; ter uma perspectiva multidimensional com a incorporação da problemática sócio-ambiental, integrando as diferentes dimensões; a noção de complexidade que exige uma visão integrada de cada sistema; a incorporação de uma escala temporal e a consciência da finitude da base de recursos, que pode ser alterada ou ampliada através de inovações tecnológicas o que, no entanto, pode provocar efeitos colaterais não desejáveis (MOURA, 2002).
 
Partindo-se do pressuposto de que a sustentabilidade tem uma perspectiva multidimensional e da definição considerada oficial (definida pelo relatório Brundtland, 1972), considera-se que o desenvolvimento sustentável tem três dimensões fundamentais: econômica, social e ambiental. Alguns autores ampliaram o leque destas dimensões. COSTABEBER (1989) enfoca aspectos econômicos, sociológicos, ecológicos, geográficos e tecnológicos. Para CAMINO & MULLER (1993) a sustentabilidade é multidimensional e deve contemplar: justiça social, viabilidade econômica, sustentabilidade ambiental, democracia, solidariedade e ética. 



SACHS (1994) definiu cinco dimensões da sustentabilidade: social, ambiental, econômica, geográfica e cultural. CARVALHO (1994), além das dimensões econômica, social e ambiental, citou também as dimensões política, cultural e institucional. MARZALL & ALMEIDA (1998) citando diversos autores, afirmaram que, ao se falar em sustentabilidade, “devem ser consideradas, no mínimo, as dimensões: econômica, ambiental e social”. DAROLT (2000) também analisou a questão da sustentabilidade em cinco dimensões: sócio-cultural, técnico-agronômica, econômica, ecológica e político-institucional.
 
SACHS (1997) apud VAN BELEN (2002), afirma que o conceito de desenvolvimento sustentável apresenta cinco dimensões, com seus conceitos e variações: 1) sustentabilidade da perspectiva econômica (que abrange alocação e distribuição eficientes dos recursos naturais dentro de uma escala apropriada); 2) sustentabilidade da perspectiva social (que dá ênfase na presença do ser humano na ecosfera); 3) sustentabilidade da perspectiva ambiental (que analisa os impactos das atividades humanas sobre o meio ambiente); 4) sustentabilidade da perspectiva geográfica e 5) sustentabilidade da perspectiva cultural (que se preocupa com distribuição dos assentamentos humanos e das atividades econômicas). Pode-se observar que cada autor faz uso de diferentes dimensões.



A importância dada a determinadas dimensões depende dos objetivos e do contexto em que são realizados os estudos. No entanto, no debate da sustentabilidade, independente da filiação a qualquer corrente de pensamento, todos os autores enfatizam a necessidade dos modelos de desenvolvimento serem multidimensionais, abrangendo as dimensões sociais, ambientais e econômicas e seus vínculos com outras dimensões mais específicas como: política, institucional, cultural, democracia, ética, tecnologia, solidariedade e outras.
 
Na operacionalização de sustentabilidade econômica procura-se contemplar a viabilidade e estabilidade econômica, a capacidade de suporte frente a riscos, a autonomia de recursos e a rentabilidade dos fatores, permitindo ao sistema manter a produção, através do tempo, frente a pressões socioeconômicas ou ambientais, mas gerando uma rentabilidade estável e suficiente que permita a reprodução social.
 

Para a operacionalização da sustentabilidade social, busca-se contemplar a distribuição mais equitativa da renda, acesso à propriedade, emprego, oportunidades, bens e serviços e a possibilidade de participação social com vistas à redução da desigualdade entre os atores e a satisfação das suas necessidades essenciais.
 

Na operacionalização da sustentabilidade ambiental, refere-se à autonomia energética do sistema, à utilização de formas renováveis de energia, uso de práticas de preservação e conservação dos recursos naturais que permitam ao sistema manter a capacidade produtiva através do tempo para absorver ou se recuperar diante das agressões antrópicas.
Um problema preliminar no desenvolvimento de indicadores é que não há uma clara definição de desenvolvimento sustentável, visto que as diferentes culturas e os diferentes grupos tendem definir sustentabilidade em termos de sua visão de mundo e de seus propósitos e interesses (KELLY, 1998).
 

Assim, indicadores representam à diversidade de prioridades e preferências. Outra questão problemática na operacionalização do conceito é o fato de que as várias definições de desenvolvimento sustentável frequentemente se focalizam sobre resultados do processo e o poder de recuperação dos sistemas; partem do pressuposto que um sistema, depois de vários acontecimentos, pode ser dito sustentável.


De fato, um sistema sustentável é aquele que sobrevive e persiste. Mas, há ao menos três complicações adicionais: (a) qual sistema ou subsistema ou característica do sistema persiste? (b) por quanto tempo? e (c) como fazer para avaliar se um sistema, um subsistema ou característica tem persistido? (HARDI et al., 1997). Neste contexto, a definição de Brundtland é uma declaração aproximada das características do estado da sustentabilidade, embora sem dizer como chegar lá.
 

Dessa forma, as discussões afloradas com o Relatório Brundtland trazem uma das definições mais conhecidas que afirma que o desenvolvimento sustentável como um desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades. Esta definição nada mais é do que uma afirmação sobre as condições de sustentabilidade dos sistemas naturais e humanos e não se refere especificamente ao ponto onde estes sistemas devem chegar (WORLD COMMISSION ON ENVIRONMENT AND DEVELOPMENT, 1987).
 

Vinte anos depois, em 1992, no Rio de Janeiro, na Conferência Internacional da Organização das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, popularmente conhecida como ECO-92 ou RIO-92, o termo desenvolvimento sustentável surge como um dos temas mais urgentes e preocupantes da política internacional, fazendo com que a agenda política, a Agenda 21, seja compromisso assumido por cento e setenta e nove (179) países participantes.
 

Para DAHL (1997) o conceito desenvolvimento sustentável é cheio de valores que dão alicerces a uma sociedade ou comunidade. Em sua visão, este conceito enfrenta problemas pelo fato da sociedade necessitar de um norte e a partir dela medir se os objetivos estão sendo alcançados. Com isso, o alcance deste desenvolvimento se dá através de uma concepção compreensiva do conceito ao mesmo tempo em que essa concepção é transmitida à sociedade de forma mais clara.


Porém, não é uma tarefa simples, alguns procedimentos que avaliam a sustentabilidade pressupõem compromissos e metas para a sociedade. Já outros, atentam para compromissos e metas que emergem da própria sociedade. Enfim, há que se levar em consideração todas essas concepções no intuito de obter uma imagem mais fiel do complexo termo desenvolvimento sustentável.
 

O desenvolvimento sustentável – tido como um modelo de desenvolvimento que possibilita o alcance ou a manutenção do bem-estar de um sistema composto por subsistemas humano e ecossistema, considerados igualmente importantes (SIENA, 2002) – tem sido amplamente debatido por governos e sociedade civil nos países industrializados e em desenvolvimento. A matéria engloba questões complexas que devem ser tratadas de forma multidisciplinar, dado que os estudos, o planejamento e as ações devem acontecer em um contexto abrangente e sistêmico, onde processos de natureza diversa ocorrem simultaneamente e com graus diversos de interdependências.
 

Quando essa sociedade extrapola a capacidade de recursos, isso afeta diretamente na qualidade de vida, uma vez que a liberdade para escolha de estilo de vida é prejudicada. A relação proveniente da sustentabilidade com a qualidade de vida pode ser definida por grau de prazer, satisfação e realizações (FRANCO, 2000). Além disso, para RODRIGUEZ (2001) a garantia e alcance da contínua satisfação das necessidades humanas, no presente e futuro, estão na gestão e administração dos recursos/serviços, e também no acompanhamento das mudanças tecnológicas.
 

Em função das mudanças que ocorrem constantemente no meio ambiente e na sociedade, BOSSEL (1999) afirma que o conceito de desenvolvimento sustentável deve ser dinâmico, uma vez que há mudanças contínuas nas tecnologias, culturas, valores e aspirações. E a sociedade, por sua vez, deve permitir e sustentar estas modificações. Neste sentido, é imprevisível um resultado dessa adaptação constante, já que é conseqüência de um processo evolucionário.
 

Esse ambiente evolucionário é composto por uma estrutura de redes de relacionamentos, na qual sua dinâmica acontece por intermédio de interações mediadas por relações de interdependência (MARTINS & CÂNDIDO, 2008). Neste sentido, o reconhecimento da variedade dessa estrutura via dimensões da sustentabilidade e os objetivos que direcionam os modos de vida da sociedade contribuem para a construção de um novo modelo de desenvolvimento sustentável.


Observação -  A bibliografia está toda descrita no trabalho de Tese.

* Carinhosamente conhecido por RAMIRO PINTO, filho de Dona Joriéte e Seu Gercino, irmão de Fred Ozanan, Gercino Jr, Jógerson e Jordânio, esposo de Mary Roberta e pai de Matheus, Rafael e Ramiro, missionário da igreja católica, ambientalista, campinense, nordestino, administrador, doutorando em Recursos Naturais, mestre em Engenharia de Produção, especialista em Inovação e Difusão Tecnológica, Professor da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas – FACISA e Analista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA.

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